Cidades Mais Verdes
Carla Fernandes
«[...] o desejo de ajudar e de ser voluntária pela natureza é para mim quase uma forma de veneração. Na verdade, dá-me energia para sustentar todos os outros trabalhos na minha vida — gosto, realmente, disto, sinto-me curada, e também aprendi muitas lições, tanto pessoais quanto profissionais, e ainda conheci muitas pessoas incríveis. Não encaro esta atividade como trabalho, mas sim como uma missão de vida.»
Sasi Kandasamy, Portugal
Da Ásia, para Portugal, passando por diversos outros países, e da tecnologia financeira para a criação de florestas em ambientes urbanos, Sasi Kandasamy é a pessoa — e o espírito — por trás da URBEM, organização não-governamental de ambiente que está a transformar Lisboa numa cidade mais verde.
Juntamente com um pequeno grupo de pessoas, todas elas voluntárias, fundou a URBEM que se dedica a mitigar os efeitos das alterações climáticas e do aumento da urbanização através da criação de florestas em diversos espaços das cidades, e também a reaproximar as pessoas da natureza, e umas das outras.
A necessidade de mudança de comportamentos é urgente, constatamo-lo um pouco por todo o mundo. Há que agir agora. Ainda é possível alterar o rumo que se antevê devastador para o nosso planeta e para os seres vivos; ainda é possível alterar hábitos, disseminar conhecimento e proteger a vida na Terra. Todas as formas de vida na Terra.
Tendo em conta o crescimento contínuo da população mundial, as previsões indicam que, futuramente, haverá muitas mais pessoas a viver em ambientes urbanos. As cidades terão, necessariamente, de ser redimensionadas e adaptadas à realidade, futura e atual: um clima em mudança e um maior número de pessoas. É uma questão de sobrevivência da espécie.
Acredita que, em breve, as cidades mais verdes serão uma realidade em todo o mundo?
A maioria da população europeia já vive em cidades. No entanto, não creio que as cidades mais verdes sejam necessariamente uma realidade, a menos que haja uma mudança nas políticas públicas e também mais apoio por parte da comunidade civil. As plantas não crescem de um dia para o outro, não é assim que surgem as florestas. Precisamos de projetos com uma duração de 10 a 50 anos para as infraestruturas verdes nas cidades e já deveríamos ter começado há anos! Mas ainda não é demasiado tarde para começar.
Quando surgiu, conscientemente, o interesse pelo futuro sustentável da vida nas cidades?
Esse interesse sempre fez parte da minha cultura e da educação que tive. Sou hindu e ensinam-nos a respeitar o espírito divino das árvores, das montanhas, dos rios e animais. Até as formigas são respeitadas e bem-vindas — temos uma tradição que consiste em criar padrões decorativos com farinha de arroz (designados de kolam) que colocamos à porta de casa para as formigas se alimentarem e que também significa que partilhamos a nossa casa com outros seres vivos. Assim, as nossas cidades também devem ser um lar caracterizado pela biodiversidade para espécies animais, vegetais, insetos e aves, e não apenas para os seres humanos. E, ao mudarmos de uma mentalidade de consumismo puro para uma atitude de cidadãos com responsabilidade cívica, espero que possamos aprender a melhorar as nossas cidades no que toca à biodiversidade e à sustentabilidade.
A paisagem verdejante e o ar mais puro são memórias de infância, dos locais em que cresceu?
Cresci no Sri Lanka, na cidade de Colombo. Sim, tenho belas lembranças dessa época: brincar no jardim, trepar às árvores, apanhar girinos para os pôr em garrafas, ouvir o canto dos pássaros, brincar com gatos e cães. A natureza é uma boa professora. Infelizmente, hoje em dia muitas crianças vivem em prédios e em zonas rodeadas de betão, recorrendo a ecrãs de computadores para aprenderem.
Nos vários países em que viveu, que diferenças observou no que diz respeito à relação das pessoas com a natureza?
O capitalismo é agora uma religião seguida pela maioria da população mundial. Por isso, tudo é sacrificado em nome do lucro, até a saúde e a paz. É imperativo mudar essa narrativa — a natureza não está fora de nós, fazemos parte dela. Em todas as grandes cidades em que morei, as pessoas lutavam contra o défice de natureza, portanto, temos de tornar o ambientalismo numa «religião», trazê-lo de volta à vida das pessoas, e acredito que nessa altura elas serão capazes de reconhecer-lhe os benefícios. Na Ásia, uma vez que muitas das religiões são animistas — hinduísmo, budismo, taoísmo — e possuem uma forte ligação com a natureza, foi mais fácil fazer as pessoas perceber. Contudo, acho que, no fundo da nossa alma, todos nós compreendemos o poder que a natureza tem para nos curar.
Como é a conciliação de uma vida profissional na área da tecnologia financeira com a sustentabilidade e a preservação da natureza?
Isso vem de um lugar profundo dentro de mim porque a forma de deusa que a minha família venera é a Deusa da Chuva (chamada Karumari). Portanto, o desejo de ajudar e de ser voluntária pela natureza é para mim quase uma forma de veneração. Na verdade, dá-me energia para sustentar todos os outros trabalhos na minha vida — gosto, realmente, disto, sinto-me curada, e também aprendi muitas lições, tanto pessoais quanto profissionais, e ainda conheci muitas pessoas incríveis. Não encaro esta atividade como trabalho, mas sim como uma missão de vida.
Relativamente à criação da associação URBEM em Portugal, com que incentivos e/ou entraves se deparou por parte entidades estatais?
Cá em Portugal, nunca tinham feito uma parceria público-privada como esta, cedendo-nos terrenos, pelo que houve alguma hesitação. No entanto, foi criado um programa-quadro da União Europeia, o Horizonte Europa, e recebemos apoio. Agora que as pessoas já puderam ver o trabalho que fazemos, e os seus frutos, há mais freguesias a manifestar interesse em colaborar connosco. Adoraríamos chegar a mais instituições, como a Direção-Geral da Saúde e a Direção-Geral da Educação, para plantar florestas em todos os hospitais e escolas.
Neste momento, existem já quatro miniflorestas plantadas pela URBEM na zona de Lisboa: no Parque Urbano do Casal Vistoso, no Parque Urbano do Vale da Montanha, na Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. Que se seguirá?
Plantámos, recentemente, florestas em parceria com as freguesias do Areeiro e de Alvalade. Plantámos também uma floresta no Instituto Superior Técnico (Universidade de Lisboa) como parte de uma experiência acerca de ilhas de calor urbanas. Em breve, atualizaremos o nosso website para refletir estas novidades. Contamos criar mais parcerias com outros organismos públicos.
Imagino que encontrar voluntários tenha sido tarefa fácil. Creio que haverá muitas pessoas que anseiam por um maior contacto com a vida natural. Como são os dias de encontro, e convívio, da URBEM?
Sim, existe uma profunda necessidade nas pessoas de se encontrarem e de trabalharem na natureza, bem como de formarem uma tribo com pessoas que pensam da mesma forma. Nunca temos dificuldade em conseguir voluntários, e muitos deles também ajudam com o trabalho administrativo e logístico (que, na verdade, representa 90% do trabalho total!). Temos voluntários com idades entre os 3 e os 75 anos, das mais variadas áreas, tanto portugueses como estrangeiros. O nosso principal evento decorre todos os sábados no parque da Bela Vista, em Lisboa, e os voluntários podem inscrever-se através do Meetup para um dia de aprendizagem sobre a natureza e diversão ao ar livre — sem ecrãs!
https://www.meetup.com/pt-br/gardening-and-social-drinks/events/
Que sabia sobre Lisboa, e sobre Portugal, antes de aqui se fixar? Essa ideia correspondeu à realidade que aqui encontrou?
Nunca tinha estado em Lisboa. Vim de férias em 2018 e gostei tanto que fiquei por cá. Senti-me, de certa forma, em casa. Antes, vivia em Londres, por isso gosto muito mais do clima aqui e também das pessoas, que são extremamente simpáticas e acessíveis. Acho que é uma cidade muito descontraída e tranquila, e é bom encontrar um sítio assim depois de conhecer a azáfama das grandes cidades. Agora, tenho um filho aqui e sinto-me muito grata por tudo o que Portugal me deu, e tenho mais uma razão para me voluntariar e retribuir à comunidade, como forma de agradecimento.
Que cidades gostaria de deixar ao seu filho? E que cidades deixaremos, de facto, aos nossos filhos, na sua opinião?
Uma cidade em que todos os seres vivos possam florescer, tanto plantas, quanto animais e humanos. Acho que ainda não é tarde de mais para tornar isso numa realidade, mas temos de agir rapidamente, todos nós. O Governo não é o único responsável pela resolução da crise climática — cada um de nós pode e deve fazer a diferença, e podemos fazê-lo no nosso próprio quintal ou nos espaços livres da cidade.
Qual é a sensação de olhar para uma pequena árvore que cresce saudável lembrando-se de que, pouco tempo antes, era uma semente na sua mão?
É indescritível. Sei que muitas das sementes que planto agora proporcionarão sombra a alguém no futuro, muito depois de eu ter partido. O melhor é mesmo levar o meu filho a estes eventos. Espero que, um dia, ele mostre as árvores aos seus filhos e lhes conte que as plantou com a mãe quando era pequenino. Seria um belo legado a deixar, a melhor herança — uma cidade verde e acolhedora para toda a vida.
Links úteis:
O relatório de impacto da URBEM, 2024 (brevemente, será publicado o de 2025): https://urbem.co/pt/2025/05/relatorio-anual-de-impacto-2024/
Março, 2026
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