Rita Cabrita
«Tendo em conta que inúmeros estudos mostram que o aumento das taxas de amamentação resultaria na prevenção de inúmeros casos de doença no bebé e na mãe, que contribuiria para o aumento da equidade em saúde e que teria um impacto positivo a nível ambiental, não sei porque não se investe mais na formação deste tipo de profissionais [consultores de lactação].»
Rita Cabrita, Portugal
Foi numa ilha verde que conheci a Rita Cabrita. Iria, decerto, impregnar-se de mundo natural e de silêncios cósmicos. Soube que se preparava para cuidar de pessoas padecendo de dores de corpo ou de alma, confusas, esquecidas ou nostálgicas de um tempo mais bondoso, como o da ilha. Voltámos a ver-nos num barco e despedimo-nos num cais. Formulei o desejo de a conhecer melhor, um dia.
É a Rita Cabrita, profissional de Saúde, médica de família na extraordinária Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) dos Olivais, ex-atleta de alta competição (Triatlo), e Mulher lúcida e suave, que vos apresento, esperando que possam deleitar-se com a sua visão sensata, gentil e sábia disto que é viver em comunidade, cultivando a empatia e o altruísmo.
A finitude da vida humana é algo que aceitas com tranquilidade?
Não, não é. Gostava de a aceitar melhor. Na nossa sociedade não é algo bem aceite, não se fala com naturalidade. Talvez pelo seu carácter definitivo: «não há nada tão certo como a morte», já diz a sabedoria popular. Na minha perspectiva, não é a morte que me assusta, mas a incerteza das circunstâncias em que esta vai acontecer e os que ficam vivos e que podem sofrer com a perda.
Que te motivou a seguir a área da Medicina?
Foi um longo percurso até chegar a médica de família. Quando, no final do 12º ano, com apenas 17 anos, tive de escolher o que fazer para o resto da vida, surgiram-me muitas dúvidas. Eu tinha uma ideia, algumas áreas de interesse, queria entrar para a universidade, mas, concretamente o que escolher, não sabia. Acabei por escolher Medicina Veterinária. Frequentei a faculdade durante uns anos, mas a dada altura o curso deixou de me entusiasmar, não era bem aquilo que queria. Parei uns meses e decidi enveredar pela Medicina Humana, um pouco a medo, confesso, e sem grandes certezas. Quando entramos para Medicina (imagino que como para qualquer curso) não sabemos bem o que é ser-se médico. Além disso, os primeiros anos do curso foram muito teóricos e só ao fim de muito tempo é que se começa a ter contacto com os utentes. O gosto pela Medicina foi crescendo lentamente, mas confesso que a paixão a sério veio ao longo da especialidade de Medicina Geral e Familiar. Gosto da possibilidade que a especialidade me dá em estar próximo dos utentes, prestar cuidados a todo o tipo de pessoas, com diferentes idades, classes sociais e credos e com todo o tipo de problemas. Tenho a sorte de poder contribuir para melhorar as suas vidas. Tenho aprendido imenso com os utentes e com as pessoas com quem tenho o privilégio de trabalhar ou ter trabalhado. Hoje, penso que não poderia ter sido outro o meu ofício. Agradeço muito que o meu caminho me tenha trazido nesta direcção. Sinto-me afortunada pela oportunidade de me tornar especialista na USF do Arco (o meu local de trabalho anterior), e de ser especialista na equipa da UCSP Olivais, onde me encontro actualmente, rodeada de pessoas tão especiais que muito contribuíram ou contribuem, para o meu crescimento como médica e como pessoa.
Qual o papel do desporto de alta competição na tua formação enquanto cidadã?
Quando penso como cheguei àquilo que sou hoje, nos ideais em que acredito, nas causas que defendo e no meu papel como cidadã, não encontro um contributo único. Com certeza que o facto de ter sido atleta de alta competição terá tido a sua quota-parte. Aprendi a ser disciplinada e a respeitar o adversário. Experimentei o inigualável sabor da vitória, mas tive de aprender a lidar com a frustração de perder. É difícil compartimentar os diferentes contributos, mas tudo isto fez com que seja quem sou hoje.
As(os) médicas(os) são um dos pilares da sociedade. És procurada, também, por pessoas sós, vulneráveis, desempregadas, marginalizadas, desamparadas, excluídas do sistema por motivos além da doença (por exemplo, pela companhia)?
Sem dúvida que sim, mas nem sempre. As pessoas excluídas do sistema por vezes não sabem o seu modo de funcionamento, não sabem como pedir ajuda, nem sequer que era suposto pedir ajuda. Esta vulnerabilidade social está associada a problemas de saúde, muitas vezes graves. É a lei dos cuidados inversos descrita em 1971 por Julian Tudor-Hart, médico de família inglês, que significa que a disponibilidade de bons cuidados médicos tende a variar inversamente com a necessidade da população abrangida. Ele descreve, por exemplo, que os serviços médicos não são os principais determinantes da mortalidade ou morbilidade (esta última pode ser descrita coma a perda de qualidade de vida relacionada com a doença) de uma população. Esses dependem mais dos padrões de nutrição, moradia, ambiente de trabalho e educação, e da presença ou ausência de guerra. Mas os cuidados de saúde podem mitigar os efeitos das más condições de vida, reduzindo a gravidade e/ou retardando a progressão da doença. Parece simples e uma realidade distante, imaginamos nós que vivemos na capital. Mas acontece aqui, no centro de Lisboa. Nos Olivais, por exemplo, temos bairros com população muito carenciada e um elevado número de utentes que não têm ou que não tiveram médico de família (ou enfermeiro) durante muitos anos. Algumas destas pessoas não tiveram as mesmas oportunidades de vida e de acesso à educação como eu tive, sobreviveram como conseguiram. Por vezes, são rudes, descuidados na higiene e com mau aspecto, têm uma agenda de preocupações diferente do que nos preocupa e desaparecem da consulta durante anos, não entendendo a necessidade de voltar.
A tua formação académica providenciou-te ferramentas para a execução dessa função? Ou é somente uma questão de sensatez e humanidade?
A formação pré-graduada, muito pouco. É muito orientada para a doença, para o seu diagnóstico e tratamento. Felizmente, ao longo dos quatro anos de especialidade de Medicina Geral e Familiar (cinco, se contarmos com o primeiro ano de internato geral) há um grande investimento na formação e aquisição de competências comunicacionais entre médico e utente. Defende-se uma medicina centrada no utente, fomentando uma decisão informada e partilhada entre este e o profissional de saúde, em contraponto com a medicina paternalista, centrada no médico. Apesar de cada pessoa ter maior ou menor apetência para o acolhimento do outro, a empatia é algo que se treina. Sobretudo nos utentes mais desafiantes, ajuda pensar: e se eu estivesse ali, com estas queixas, esta história de vida, estas convicções? E se eu fosse o utente? Dos melhores exercícios para o fazer é estarmos do outro lado. Pude viver isso quando estive grávida, ao longo das consultas e no parto. As coisas que para mim correram menos bem estiveram todas relacionadas com problemas comunicacionais. Percebo que as circunstâncias e as condições em que muitas vezes trabalhamos, com necessidades básicas por satisfazer, muitas horas seguidas e sem pausas, um corrupio para chegar a todo o lado, com enorme falta de condições materiais e humanas, não ajudam. Mas não obstante essa luta necessária pela melhoria das condições de trabalho, pelo Serviço Nacional de Saúde, temos de fazer o exercício (por vezes tão difícil) de nos centrar naquela pessoa à nossa frente, de estar disponíveis, porque agora é a sua vez.
Sentes que, por vezes, a única coisa que podes fazer por alguém é cuidar-lhe da alma? (Como fazes isso?)
Na Medicina Geral e Familiar somos especialistas em pessoas e temos como principal instrumento terapêutico a consulta, acompanhando o utente ao longo da sua vida através de múltiplos contactos. A maioria das queixas do utente não pode ser entendida se não for tido em conta o seu contexto pessoal, familiar, social e cultural. Muitas vezes, são as queixas físicas que trazem a pessoa à consulta, mas não é raro estas encobrirem sofrimento emocional, serem resultado de «dores da alma», de sentimentos de desamparo e solidão, ou de histórias de vida difíceis. Na maioria dos casos, não é imediatamente que se identifica o problema ou ajuda a minorar o sofrimento. Leva tempo e várias consultas. Aumenta a complexidade da avaliação clínica e só é possível consegui-lo com uma abordagem holística e longitudinal. Diariamente, tento acolher cada utente com empatia respeitando as suas crenças, dando-lhe oportunidade e tempo para ser escutado. Às vezes, são pessoas tão maltratadas pela vida que não se deixam ajudar. E eu também tenho dias em que estou mais disponível do que noutros. Outras vezes, ouço o tão gratificante: «só de vir à consulta falar consigo já me sinto melhor». Isso vale muito! A possibilidade que a minha profissão me dá de tornar a vida das pessoas um pouco melhor é algo que não tem preço.
Tratar, cuidar, acompanhar, escutar são excelentes exemplos de boas práticas de cidadania. É importante para ti sentir que tens uma acção directa na construção da comunidade?
Diariamente fazemo-lo na nossa prática e sem dúvida que o impacto comunitário me interessa muito. Ao contribuir para a saúde de um determinado indivíduo, acabo por melhorar a saúde da comunidade. Apesar disso, a vertente comunitária da minha profissão é talvez a que sinto menos bem concretizada neste momento. A prática do nosso dia-a-dia, desde há uns anos, tem sido caracterizada por um forte aumento da pressão assistencial curativa em detrimento da componente de promoção da saúde e prevenção da doença. É enorme a pressão diária dos utentes para acesso a cuidados de ponta, apoiados em meios complementares de diagnóstico e medicação dispendiosos ou acesso aos cuidados das especialidades hospitalares. Isto é entendido pelo utente como o melhor para a sua situação, o que não é verdade na grande maioria das vezes. Assim, sobra pouco tempo para estudar as características da lista de utentes e também compreender e reflectir acerca das necessidades de saúde da comunidade em que trabalhamos, estudando as especificidades e necessidades da população. Fundamental seria ter tempo para a articulação com outros profissionais de saúde, nomeadamente, da área da saúde pública. Isso possibilitaria empreender acções mais abrangentes dirigidas à melhoria da saúde geral da comunidade. Na nossa equipa na UCSP Olivais temos alguns projectos pensados, porque sentimos que podemos e devemos ir um pouco mais longe, e que englobam o nosso papel na melhoria da comunidade. Mas a falta de tempo e recursos fazem com que decorram com passinhos de bebé.
Como se poderia alastrar esse comportamento solidário, de cooperação e responsabilidade pelo todo, pelo colectivo à sociedade civil?
Como sociedade precisamos de cuidar e de nos importar mais com o próximo. Na minha opinião, temos de começar pela educação, nas nossas casas e nas escolas, desde o pré-escolar até à universidade. Li algures que a educação é arma para mudar o mundo, e não poderia estar mais de acordo. Mas acrescentaria a educação com amor e respeito. No entanto, a escola tem de mudar. Não é preciso «inventar a roda», já está tudo inventado, basta apenas inspirarmo-nos no que os outros fazem com tão bons resultados. Precisamos que as crianças e jovens tenham mais tempo para brincar, para actividades de ócio e lazer, uma escola onde caiba a individualidade de cada aluno. Um bom exemplo do que referes poderia ser colocar a participação cívica dos alunos na comunidade como algo valorizado na avaliação de desempenho final, como já acontece em alguns países. A educação para a saúde também deveria ter lugar na escola, já nessa fase baseada em evidência científica actualizada. Outro ponto importante na minha perspectiva, será fomentar a educação para a igualdade de género, o incentivo à não-violência e o respeito pela diferença e valorização da diversidade como algo enriquecedor e não polarizante. Não podemos continuar indiferentes ao que se passa à nossa volta. Temos de plantar sementes, que levarão anos a crescer e a mostrar resultados, mas indispensáveis nos dias de hoje.
Tornaste-te, recentemente, Consultora Internacional de Lactação Materna, certificada pela IBLCE (International Board of Lactation Consultant Examiners) — parabéns! Ainda assim, continua a existir uma lacuna nesta área, em Portugal. Porque não se investe mais na formação (em universidades, hospitais ou entidades externas) deste tipo de profissionais?
Tendo em conta que inúmeros estudos mostram que o aumento das taxas de amamentação resultaria na prevenção de inúmeros casos de doença no bebé e na mãe, que contribuiria para o aumento da equidade em saúde e que teria um impacto positivo a nível ambiental, não sei porque não se investe mais na formação deste tipo de profissionais. Infelizmente, os profissionais de saúde têm pouca formação em aleitamento materno. Em mais nenhuma área da medicina, de forma tão evidente, os profissionais trocam o conhecimento e as recomendações baseadas na evidência pelas suas próprias experiências e convicções. A ciência da lactação é muito vasta. Dediquei o meu ano de 2018 ao seu estudo aprofundado e tenho plena noção de que apenas conheço uma pequena parte. Em Portugal, a consultoria de lactação ainda não é reconhecida como uma profissão, levando a que o apoio na amamentação seja feito por pessoas menos diferenciadas ou sem formação adequada na área. Nalguns países do mundo, os consultores de lactação fazem parte do staff hospitalar e dos cuidados de saúde primários, sendo profissionais com elevada qualificação para o apoio de mães com dificuldades na amamentação. Seria importante que o mesmo acontecesse no nosso país. Como sociedade, houve um afastamento da amamentação na última metade do século XX que, feliz mas lentamente, tem vindo a mudar. Ainda há muita gente que nunca amamentou ou viu amamentar e as vendas de leite artificial continuam a aumentar. Temos de tornar normal a amamentação. Mais uma vez, seria importante começar pela escola, seguindo pelas universidades. Pelo menos os cursos de Medicina, Enfermagem, Nutrição, Educação de Infância deveriam ter uma formação básica no seu currículo acerca da amamentação, o que permitiria lidar com as situações comuns, deixando os casos mais complexos para os consultores de lactação.
Como sentes que esse teu trabalho é recebido pelas mães (ou futuras mães) e pela sociedade em geral?
Apesar do investimento que fiz ter pesado no orçamento familiar e ter despendido muitas horas de estudo para conseguir obter o título de consultora, sinto que faz toda a diferença no apoio que dou actualmente aos meus utentes. De forma geral, o meu trabalho é muito bem acolhido pelas famílias. No entanto, existe a ideia generalizada de que quem apoia a amamentação é fundamentalista e só concebe essa forma de alimentar os bebés. Não concordo, a decisão é sempre da mãe e o meu papel é apoiá-la independentemente da sua decisão. Mesmo que esta seja diferente da decisão que eu tomaria na mesma situação. Algumas mulheres não poderão amamentar em exclusivo, poucas felizmente, e outras não quererão ou não poderão fazê-lo. Respeito cada mulher e tento acolhê-la porque nem sempre é um processo fácil. O mais importante é reforçar a confiança da mãe e normalizar o comportamento do bebé, ajustando as expectativas do bebé imaginado ao bebé real. Talvez a queixa mais frequente das mães, no que concerne à amamentação, seja a dor, muitas vezes entendida como algo normal e que passa com o tempo. E não é verdade, se dói é porque algo tem de ser melhorado!
Combater o preconceito que paira sobre a amamentação e os planos de cada mãe, quaisquer que sejam, é combater o capitalismo (foco nas pessoas, não no trabalho); o patriarcado (são, maioritariamente, homens a implementar leis que impedem muitas mulheres de prosseguir com os seus planos de amamentação); e, enfim, a desigualdade e o julgamento incapacitantes da nossa sociedade «desenvolvida». Concordas?
Como referi anteriormente, a confiança das mães é algo fundamental na amamentação. Vivemos numa sociedade que tão depressa julga uma mãe por inicialmente não amamentar (sem saber por que motivo) como, meses depois, sobretudo se tiver mais de um ano, volta a apontar o dedo por manter o aleitamento materno. Isto apesar da recomendação da Organização Mundial de Saúde ser de manter o aleitamento materno até aos 2 anos ou mais, enquanto a mãe e o bebé desejarem. O que defendo é que cada mãe seja apoiada no seu projecto de amamentação, tenha ele a duração que tiver, 0 dias ou 6 anos, sem julgamentos, críticas ou preconceitos. Por outro lado, nem sempre é possível a cada mulher cumprir o seu projecto de amamentação, seja pela licença parental não cobrir os primeiros 6 meses de vida do bebé, seja pela pressão da entidade laboral para que não usufrua da redução da jornada laboral (prevista na lei enquanto mantém a amamentação) ou pelas inúmeras pressões sociais e dos profissionais de saúde a que são sujeitas em todo o processo. O mesmo acontece com as grávidas que continuam a não ter contratos renovados, a ser colocadas a fazer tarefas não adequadas, etc., mesmo que na lei esteja previsto que tal não aconteça. Enquanto sociedade, temos de evoluir, temos de, a nível individual, tratar os outros com respeito e empatia, parar de avaliar as decisões do próximo pela nossa perspectiva e precisamos urgentemente de redes de suporte na comunidade. As mães carregam a culpa às costas, não podemos, enquanto sociedade e muito menos enquanto profissionais de saúde, contribuir para o aumento de tão grande fardo. Relativamente aos decisores políticos, temos de ter uma visão macroscópica da situação e perceber que uma grávida significa mais um bebé nesta sociedade envelhecida e que a mãe que amamenta pode significar uma redução dos custos em saúde a curto e a longo prazos. Talvez permitir que o trabalho e a família não estejam tão segmentados. Precisamos de valorizar (tal como acontece em alguns países) o usufruto da licença parental, seja pela mãe ou pelo pai. Criar condições para que cada mulher, se assim o desejar, possa amamentar até aos 6 meses em exclusivo, aumentado a licença parental paga na totalidade, para que o regresso ao trabalho não seja um entrave para o conseguir. A propósito disto, está neste momento a decorrer uma petição para que o alargamento da licença parental paga até aos 6 meses volte a ser discutido no parlamento e convido todos a assinar. Como dizes, a postura em relação à amamentação (e outros assuntos da parentalidade) é apenas o espelho da sociedade em que vivemos, em que avaliamos as situações através de uma lente que tem inconscientemente entranhada uma visão machista. Precisamos de explicar até à exaustão que é urgente concretizar a igualdade entre mulheres e homens e que é isso o feminismo. Precisamos de educar os nossos filhos a perceber que a diferença é enriquecedora e não o contrário. Precisamos de acolher o próximo com amor e respeito, independentemente das suas escolhas, seja em relação à amamentação seja em relação a outro tema similar.
Que te faz recuperar a esperança, nos dias menos bons?
Nos dias difíceis, ajuda-me pensar na sorte que tenho em fazer algo tão gratificante e que me traz tanta satisfação. Ajuda pensar que amanhã é outro dia. Eu sou optimista por natureza, acredito nas pessoas e que o futuro será desafiante, mas risonho. Tenho tantos projectos que quero fazer acontecer. Enche-me o coração trabalhar numa equipa como a UCSP Olivais, em que um grande número de pessoas partilha os mesmos ideais que eu e quer fazer mais e melhor, preocupando-se verdadeiramente com o próximo. Mesmo com poucos recursos humanos e materiais, conseguimos organizar um modelo de prestação de cuidados dirigido à população mais vulnerável. Tenho muita sorte em trabalhar com pessoas tão especiais e que me ensinam diariamente, incluindo os meus utentes.
Cuidar da vida é a tua função. Qual a tua opinião sobre a eutanásia?
Como todas as perguntas relacionadas com questões éticas, não tem uma resposta dicotómica. Nem sempre é sim ou nem sempre é não. Penso que nunca haverá uma única opção que sirva a todas as pessoas com doenças incuráveis e em grande sofrimento. Mas, respondendo mais concretamente, sou a favor do livre arbítrio, da liberdade de escolha. Por isso, penso que deveria ser despenalizada. Contudo, nesta área dos cuidados em fim de vida, penso que será fundamental reforçar a rede de cuidados paliativos, sobretudo na sua vertente comunitária, e desmistificar o estigma de todos em relação aos mesmos, incluindo os profissionais de saúde, possibilitando que desde uma fase inicial de evolução da doença os doentes lhes possam ter acesso.
Quem cuida de ti?
A responsabilidade maior de cuidar de mim, é minha. Ajuda-me muito, nos momentos em que não faço nada, ouvir uma boa música ou fazer exercício. O que actualmente não acontece muito, pois o tempo, esse bem precioso da nossa era, é escasso. Também tento ser justa comigo e não demasiado exigente, o que na verdade é extremamente difícil. Mas é o maior tesouro da minha vida, o meu filho Martim, que me dá aquele abraço que cura tudo e que cuida de mim sem saber. Ele fez-me descobrir o amor incondicional e desafia-me diariamente. E, claro, o meu companheiro, a minha família, as minhas amigas e amigos, que me acolhem e protegem e ajudam a lamber as feridas nos dias mais duros.
Setembro, 2019.
Texto escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.