Michelle Castro
Conheci a Michelle Castro num Círculo de Mulheres. Só nos vimos uma vez, só nos abraçámos uma vez. A ligação, porém, já existia e apenas se tornou oficial no código dos humanos. Nessa única vez, ela falou à irmandade do Projecto Ser versus Fazer e eu fiquei fascinada. Agora, pedi-lhe que partilhasse a essência, do projecto e de si mesma, para que ambas se propaguem sem pudor e engrandeçam a nossa comunidade.
Quem és tu, Michelle?
Michelle Castro, 40 anos. Nascida na África do Sul, mãe moçambicana e pai português. Residente em Portugal desde os 8 anos. Em 2007, fui apresentada ao mundo do Desenvolvimento Pessoal (DP) através de um autor chamado Jim Rohn e fiquei completamente apaixonada. Ficou claro para mim que, independentemente do que fizesse daquele momento para a frente, o meu desenvolvimento pessoal e humano passaria a ser um dos meus principais propósitos de vida, apesar de não ser claro para mim como pretendia, exactamente, fazer isso. À medida que ia participando em formações, estudando, lendo, reflectindo sobre o tema do DP, e como qualquer pessoa que tem interesse por esta área, fui aprofundando o meu nível de consciência em relação a conceitos como amor, humanidade, humildade, bondade, simplicidade, partilha, consciência, coerência, gratidão, julgamento e compaixão. De todos estes conceitos, o julgamento e a compaixão foram os que me intrigaram mais pois, em situações em que o comportamento humano excede certas barreiras comportamentais como violação, homicídio e pedofilia, podem ser um verdadeiro teste ao nosso DP. Passei a estar cada vez mais atenta à forma como nós, enquanto sociedade, lidamos com os erros que todos cometemos, desde os mais simples, cometidos pelos nossos filhos, aos mais complexos, cometidos por Seres Humanos que estão presos. Passei a reflectir sobre a forma como julgamos esses erros, isto é, sobre as respostas ou soluções que damos a esses erros que cometemos, e fiquei cada fez mais consciente de que nós, enquanto sociedade, lidamos com os nossos próprios erros, e com os erros dos nossos filhos, amigos, familiares, colegas, alunos e desconhecidos, tendencialmente da mesma forma: castigando («estás de castigo», «tens de ser castigado»). Castigamos com a intenção de ajudar ou de obrigar o outro, ou a nós próprios, a corrigir o erro, ou como forma de vingança, sem qualquer intenção de ajuda mais profunda e duradoura.
Foi neste contexto de DP, e de tomadas de consciência, que procurei mais informações sobre o que se passava nas prisões de todo o mundo, onde se encontram os Seres Humanos mais severamente julgados e castigados. Comecei a questionar-me sobre quais os resultados que obteríamos se, em vez de resumirmos a nossa resposta ao acto de errar a julgar e castigar, respondêssemos com compaixão, humanidade, amor, humildade, tolerância e vontade genuína de promover mudanças humanizadas.
Que é o Projecto Ser versus Fazer? Como nasceu?
O Projecto Ser versus Fazer nasceu de duas coisas: da vontade de sair do universo das intenções e passar a acções, e do acaso/oportunidade. Na minha vida profissional de nutricionista tenho a oportunidade de me ligar e relacionar diariamente com diferentes pessoas e, num dia normal de trabalho, dei uma consulta a uma professora de Português numa escola de uma prisão e fiquei muito curiosa com a sua profissão. Perguntei-lhe como era dar aulas a estes alunos. Com o desenrolar da conversa, dei por mim a partilhar de forma entusiasmada algumas reflexões e o projecto que gostaria de desenvolver um dia com estes alunos. A minha cliente mostrou-se muito interessada e entusiasmada com tudo o que estava a partilhar e comentou que achava uma óptima ideia, tinha a certeza de que seria útil e de que os alunos iriam gostar. Depois, perguntou-me quando é que eu queria ir à prisão dar formação aos seus alunos. Confesso que, quando me vi confrontada com a real possibilidade de desenvolver algum tipo de projecto na prisão fiquei em silêncio, assustada, e pensei: «E agora? Aqui tens a oportunidade real de fazer alguma coisa, será que és capaz? Será que tens as ferramentas necessárias para ajudar estas pessoas?». Apesar de todas as inseguranças, respirei fundo e respondi que iria elaborar e enviar uma proposta.
Foi no desenvolvimento desta proposta que nasceu o Projecto Ser versus Fazer, uma acção formativa de DP onde, por meio de diversas dinâmicas, levamos os participantes a reflectir e a tomar consciência da relação que existe entre aquilo que são e aquilo que fazem, ou fizeram, e na relação que existe entre aquilo que fazem, ou fizeram, e a aquilo que são, num ambiente descontraído, positivo e isento de preconceito e julgamento, com a simples intenção de os levar à vontade de se tornarem Seres Humanos cada vez melhores, a mesma vontade que me levou até eles. O resultado foi indescritível! Muitas vezes, perguntam-me: «Como surgiu esta tua vontade?», ou «Tens algum familiar ou amigo preso?». Na realidade, não. A ideia surgiu da fusão de três coisas: uma curiosidade enorme em relação às pessoas que se vêem privadas da sua liberdade por erros que cometeram na vida; pelo meu processo de DP e o fascínio pelo conceito da compaixão; pela vontade de ajudar pessoas e contribuir para a construção de um mundo mais humanizado, coerente e positivo.
De forma resumida, surgiu da vontade de praticar a compaixão, e o não julgamento, ao ponto de os sentir de forma cada vez mais genuína.
Acreditas que o ser humano é naturalmente dotado de bondade e compaixão? A educação e a sociedade moldam-no, então, tornando-o em algo diferente? E a genética, onde fica?
Acredito que o Ser Humano é naturalmente dotado de um instinto de sobrevivência que, dependendo de diversas circunstâncias, o leva a desenvolver e a tomar consciência dos conceitos da bondade, compaixão e solidariedade de formas muito diferentes. Acredito que a diversidade de sentimentos, atitudes e emoções, melhores e piores, fazem parte de um equilíbrio que tem de existir para podermos valorizar os diferentes espectros de acontecimentos na escala do mais ao menos positivo. A capacidade de valorizar o «bom» está dependente da existência do «mau». Por outro lado, aquilo que experienciamos como “mágico” normalmente não é «banal», e é por não ser banal que é possível experienciá-lo como mágico. A educação e a sociedade influenciam o nosso DP pois fazem parte das nossas experiências de vida, interpretadas e vividas de forma diferente. No entanto, acredito também que factores como a personalidade, o estado de saúde física e mental, a genética e o divino são elementos que, em conjunto, contribuem para interpretar e integrar os acontecimentos que a vida nos proporciona e moldar cada um de nós como Seres Humanos.
Como tens sido recebida pelos presidiários?
Extraordinariamente bem. Com uma curiosidade imensa por quem sou, o que faço e como fui ali parar. No início, com as defesas levantadas, mas no final, com amor e gratidão. Vejo em todos eles Seres Humanos maravilhosos que, como muitos de nós, vêem as suas intenções e objectivos de vida esquecidos pela forma incoerente como vivem, de facto, as suas vidas. A primeira e única vez que fui à prisão foi há quase um ano, a 23 de junho de 2017, acompanhada por um querido amigo que aceitou ir nesta aventura comigo. Desde então, embora tenhamos sido contactados por diversas formas para regressar, por uma série de circunstâncias, ainda não regressámos. Poderia dizer que foi por questões profissionais, falta de tempo, etc., mas, há muito pouco tempo, apercebi-me, com clareza, de que após a formação me confrontei com emoções de tal forma fortes que não estava preparada para lidar com elas. Apesar de ter sido profundamente gratificante e de termos recebido cartas dos participantes a testemunhar grandes transformações pessoais, mergulhei numa tristeza profunda pela sociedade em que vivemos e pela sensação de impotência perante as mudanças que acredito que o mundo precisa. Tenho trabalhado em mim no sentido de aceitar e compreender estas emoções e ultrapassar as limitações que me estavam a trazer e sinto-me preparada para levar este projecto a um nível cada vez maior e mais sério, para contribuir para o DP destes Seres Humanos (mulheres, homens, jovens).
Que sentiste no final do trabalho?
No final, senti uma profunda compaixão e gratidão. Senti a certeza de que o não julgamento e a compaixão pelo próximo, apesar de muitas vezes serem difíceis, são o caminho para uma sociedade mais saudável. Senti que a resposta é sempre amor.
Recebeste feedback deles ou das suas famílias?
Recebemos feedback deles por meio da resposta a um questionário anónimo e por meio de cartas. Os comentários foram muito além da expectativa e todos os participantes, sem excepção, mostraram interesse no nosso regresso e em mais iniciativas deste género. A carta que mais me tocou foi uma que reflectia tanta gratidão que a pessoa que a escreveu comparou o que sentiu àquilo que «se sente quando se vai a uma igreja». Sentiu uma aproximação ao seu Eu Divino. Incrível!
Considerando, então, as sociedades de hoje em dia (com criminalidade e sistemas judiciais), como se poderá melhorar a Justiça, no sentido humano da questão? Devem existir prisões? Como nos poderemos organizar, enquanto comunidade, para que os níveis de criminalidade diminuam (ou desapareçam!) e o sistema judicial seja o mais humano e construtivo possível?
Tenho consciência de que a questão é altamente complexa, mas acredito efectivamente que podemos melhorar a justiça. Apesar de chocar muitas pessoas, acredito que não deviam existir prisões. Até o nome é negativo…Prisão! Acredito em instituições em que privamos certos Seres Humanos da sua liberdade para serem ajudados a não fazerem mal a outras pessoas e, consequentemente, a elas próprias, e para ajudar pessoas inocentes a não sofrerem actos criminosos. Neste caso, o único aspecto que poderia ser interpretado como castigo seria a privação da liberdade, mas tudo o resto seria agilizado de forma a proporcionar condições de vida promotoras de consciência, arrependimento e transformação. A liberdade aconteceria como consequência de um processo de DP e capacidade de viver construtivamente em sociedade. Desta forma, o tempo de privação da liberdade não seria definido por um castigo. Seria definido pelo tempo necessário para ajudar a transformar positivamente um Ser Humano. Um sistema semelhante a este que defendo existe na Alemanha, podendo haver privação da liberdade de forma indefinida se houver sinais de incapacidade de retomar a vida na sociedade de forma autónoma e construtiva. Desde que este sistema foi implementado na Alemanha, em que o único castigo aplicado é a privação da liberdade, os níveis de criminalidade, tanto dentro como fora das instituições, são incrivelmente baixos.
O Projecto Ser versus Fazer terá, seguramente, continuidade num futuro próximo. Gratidão, sábia Michelle. Até já, num abraço de irmãs.
Junho, 2018.
Texto escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.