Luís Varatojo. Fotografia da autoria de Rita Carmo.
«[...] neste momento acho que vivemos uma espécie de nova idade média, desta vez a nível global, em que os senhores feudais controlam através da imposição de uma certa ignorância sofisticada, veiculada através dos média e suportada por um ilusório conforto tecnológico.»
Luís Varatojo, Portugal
Oferece resistência a tudo o que banalize a cidadania e a pureza. É feito de ideias, cadências, sentido de comunidade, curiosidade e vontade de mudança. Compõe música densa de tudo o que é, agitando subtilmente as ganas dos distraídos e olhando para o horizonte com alento.
É com gratidão (e entusiasmo, caramba!) que aqui divulgo as visões e crenças que o Luís Varatojo, gentil e prontamente, me concedeu, não tanto sobre a música que faz (sou suspeita, gosto muito), mas sobre o mundo que (des)construímos e as pessoas que somos e os rastos que deixamos, e sobre quem ainda podemos ser, caso decidamos usar coragem e clareza no caminho (contra o sistema, claro).
Fazes ouvir a tua voz inteira? Sempre ou quando?
Quero que seja sempre, mas tenho consciência de que nem sempre é possível. Existem muitos factores que condicionam a nossa vida em sociedade e por vezes temos de fazer concessões. Estou a falar da vida do dia-a-dia. Não há ninguém que viva totalmente independente do sistema. Se tens cartão de cidadão, fazes parte do sistema. Se pagas impostos, fazes parte do sistema. Se vais às compras, fazes parte do sistema. Se fazes parte do sistema, não és totalmente livre e por mais que tentes ser fiel aos teus princípios, há sempre situações em que o sistema é mais forte que tu, e nem os livros de reclamações te salvam.
Música – reflexão, expressão, intervenção, libertação, desconstrução, união, expansão, consciencialização? Sim, não? Que mais?
Sim, a música é uma forma de expressão artística e por isso mesmo é, ou deve ser, tudo isso. O processo criativo começa quase sempre com uma reflexão: que música quero fazer? O que é que quero dizer? Essa reflexão conduz geralmente a um conceito que vai orientar e sustentar todo o trabalho; raramente parto para um trabalho sem ponderar bem o que vou fazer; não me sinto confortável com o improviso total, com a folha em branco sem guias nem objectivos concretos. A expressão vem a seguir, quando chega a altura de concretizar a ideia em música. Conseguir uma expressão pessoal é o objectivo e a razão de ser de qualquer artista. É também a parte mais difícil do processo. É aqui que, por vezes, nos sentimos num beco sem saída; quando a tal ideia, que parecia óptima, bem sustentada, não encontra tradução num objecto concreto; quando sabemos o que queremos dizer, mas não o conseguimos fazer. A libertação ocorre quando conseguimos essa expressão.
Para mim a música é sempre intervenção, e não tem necessariamente de falar de política ou questões sociais. Por vezes, uma opção estética de cariz estritamente musical, pode ter mais impacto do que uma letra abertamente contestatária. O que interessa é ir contra a corrente. Quando o sistema absorve o rock e o reproduz em série, então é porque o rock não afecta o sistema, pelo contrário, funciona em prol do sistema; nesse caso, tocar fado, por exemplo, talvez seja mais interventivo.
Arte: liberdade de criação versus subsistência. Como tens vivido esta relação?
Não é um equilíbrio fácil. Com ou sem liberdade de criação. Mesmo trabalhando para encomendas (tenho feito música para publicidade, documentários, e trabalhado na concepção de espetáculos exclusivos, por exemplo), em que essa liberdade é, supostamente, menor, não é fácil manter um bom fluxo de trabalho porque o mercado é muito curto. Somos um país pequeno e os hábitos culturais dos portugueses também não ajudam. As pessoas pensam que a música nunca esteve tão bem porque vêem festivais por todo o lado, mas isso é um engano. A proliferação de festivais tem servido mais para a importação de música estrangeira do que para a criação de um circuito consistente para a música portuguesa. Não conheço nenhum músico português que tenha conseguido melhoria de vida com a chegada dos festivais. Por outro lado, e apesar do advento da internet, a divulgação de música é cada vez mais difícil; o serviço público funciona sobretudo em prol da grande indústria e das tendências da moda em vez de abrir espaço para o aparecimento de novas propostas e para o desenvolvimento da cultura portuguesa, que foi para isso que foi criado. Ainda assim, acho que o principal é manter um bom ritmo de produção, trabalhar todos os dias, e com objectivos bem definidos. Pensar os projectos a médio e longo prazo, planear bem, ser bastante organizado e metódico. O estereótipo do criativo desorganizado não leva a lado nenhum, só existe na ficção. Basicamente, é isso que tenho feito.
Existe vulnerabilidade no teu processo criativo? (No sentido em que, como se diz, a vulnerabilidade está na base da criatividade e da inovação.)
Sim, as coisas são sempre mais interessantes quando saímos da nossa zona de conforto. Não gosto de repetir um processo durante muito tempo. Geralmente, essa repetição leva à repetição dos resultados e isso é muito pouco motivador. Mudo muitas vezes de instrumentos, o que faz com que encontre caminhos que de outra forma não encontraria. Por vezes, as melhores ideias saem com instrumentos que não sei tocar bem; por não dominar a técnica desses instrumentos, sou obrigado a simplificar, e simplificar é sempre bom.
Como sentes a entrega dos teus objectos artísticos ao mundo?
Sinto que, no geral, consigo comunicar. Tenho experimentado coisas muito diferentes e a adesão também tem sido muito diferente. Já fiz coisas para massas, já fiz outras que se ficam pelos nichos, embora nunca tenha tido intenção de trabalhar para elites.
Acreditas que os humanos se conseguem organizar de formas diferentes que não incluam, por exemplo, o capitalismo opressor? O que nos falta, então, para fazê-lo agora?
Tudo é possível, e a história comprova isso. Mas neste momento acho que vivemos uma espécie de nova idade média, desta vez a nível global, em que os senhores feudais controlam através da imposição de uma certa ignorância sofisticada, veiculada através dos média e suportada por um ilusório conforto tecnológico. Não me parece que, a breve trecho, se verifiquem grandes alterações, contudo, acho que, a uma escala mais local, irão aparecer cada vez mais experiências comunitárias alternativas, embora bastante condicionadas pelas redes de interesses (sobretudo económicos) globais.
Democracia, sociocracia ou anarquia? Se a união faz a força, mas a força para a união é fraca, qual a solução para criarmos comunidades de pessoas unidas, solidárias e cooperantes? Que é como quem diz: como é que salvamos a humanidade?
Não sei se tem salvação. Somos demasiado individualistas. Cada vez mais. A democracia parece ser o sistema mais equilibrado, mas está longe de ser perfeito. Ultimamente, tem mesmo servido para legitimar opções políticas que exacerbam esse individualismo. Não estou nada optimista quanto ao futuro da humanidade, mas isso não quer dizer que devamos desistir. A sustentabilidade do planeta e a melhoria das condições de vida devem ser objectivos sempre presentes no nosso dia-a-dia, nos pequenos gestos, em tudo o que fazemos. E isto só se consegue se nos organizarmos, o individualismo só trará destruição. Associações, agremiações, sindicatos, partidos, clubes, condomínios, grupos excursionistas, etc. O colectivo é sempre o caminho.
O amor é sempre a resposta?
Sem dúvida.
E os Joy Division? (Tinha de os meter aqui...)
Eram fixes, mas a minha banda preferida sempre foi The Clash ;)
O que queiras acrescentar...
Foi um prazer.
Agosto, 2018.
Texto escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.