Narrativas para a Representatividade
Carla Fernandes
«A representatividade deve ser autêntica. O livro infantil é um espaço fantástico para celebrar essa autenticidade, explorar novas formas de reunir miúdos e graúdos à volta de temáticas difíceis de forma aberta e orgânica. A simplicidade das histórias promove possibilidades múltiplas de aprofundar temas complexos.»
Carla Fernandes, Portugal
Carla Fernandes é escritora, tradutora, jornalista, fundadora da associação Afrolis, produtora e ativista cultural. Trilha caminhos árduos, tanto criativos quanto informativos, mas sempre revestidos de resiliência, rumo a uma representatividade justa e fidedigna.
É mentora de narrativas essenciais, necessárias, difundidas em veículos diversos e que abraçam verdadeiramente a diversidade que compõe a sociedade portuguesa. Munida de um belíssimo domínio da palavra, escrita e falada, enriquece a memória coletiva com as identidades e as perspetivas, a cultura e as perceções que, embora parte intrínseca do tecido social português, tantas vezes são desconsideradas.
A poesia uniu-nos uma primeira vez, a celebração mútua das conquistas literárias, e outras, manteve a ligação viva.
Como foi estudar em Portugal? Sentiste-te integrada? Desintegrada? Que guardas desse tempo?
Estudar em Portugal foi estranho. Não sei se essa estranheza seria diferente em outro país europeu, sendo filha de imigrantes africanos, mas em Portugal esta estranheza caracterizou-se por uma oscilação constante entre o «mas falas, escreves, expressas-te tão bem», durante a escola primária e o secundário, e o «você é arrogante! A sua redação é pretensiosa! Vamos marcar uma prova oral.», durante a licenciatura. Houve alguma tranquilidade durante o mestrado e incómodos durante o doutoramento não terminado. Foi um reflexo da forma como todas as minhas relações em Portugal foram. Em momentos inesperados, sentia que me tiravam o tapete, questionando o meu direito de ocupar determinados lugares e expressar-me de certa forma.
Houve em ti desilusão com a sociedade portuguesa? Houve algum momento em que deixaste de ter esperança nos governantes relativamente ao papel das pessoas negras e racializadas na nossa sociedade? (Ou nunca alimentaste tal esperança?)
Nunca pensei muito nos governantes ou na sociedade portuguesa enquanto lugares de esperança ou de desilusão. Sempre me interessou mais a experiência de pessoas como eu. Pessoas negras e o seu lugar na sociedade portuguesa enquanto espaços disponíveis e ocupáveis. Não tinha muito a noção do racismo enquanto sistémico. Acreditava que os lugares que não estavam a ser ocupados por pessoas negras eram perfeitamente ocupáveis por nós. Pensava na nossa ausência nesses lugares no sentido de falta de exposição da nossa parte, falta de oportunidades e consequente falta de representatividade. Nunca acreditei em máximas como «as pessoas negras não são capazes». Eu sempre achei impossível que pessoas «não fossem capazes» pela cor da pele, pelo país de origem, género, etc. Achava ridículo, desde criança. E causava-me uma estranheza enorme que tantas pessoas de todo o mundo, adultos e até mesmo pessoas desses grupos acreditassem num «essas pessoas não são capazes». E era triste ver como essa crença impedia tanta gente (a mim também, mesmo não acreditando na premissa, ela afetava-me profundamente) de fazer, ser, tentar, amar, viver.
A Afrolis — Associação Cultural nasceu, creio, dessa ferida há muito aberta em Portugal (e no mundo) que é a falta de representatividade da cultura e das pessoas negras e racializadas. Em que consiste este projeto?
Sim, de certa forma, podemos dizer isso. Eu diria que a Afrolis nasceu da minha descrença nas mentiras sobre pessoas negras. O projeto nasceu para criar um espaço de expansão das possibilidades de existência de pessoas negras através de exemplos, vivos e próximos. Entrevistando afrodescendentes negros a viver em Lisboa, teríamos, por um lado, exemplos de formas de estar e viver na sociedade portuguesa reais e diversos, por outro lado, não poderíamos recorrer ao «mas isso é lá nos Estados Unidos ou no Brasil». A inspiração nem sempre mora do outro lado do oceano, queria eu mostrar, através do podcast Rádio Afrolis, que lancei em 2014. Foi assim que a Afrolis — Associação Cultural nasceu, através do podcast, ou audioblogue, como lhe chamava na altura.
Em finais de 2013, regressava de 6 anos a viver na Alemanha a trabalhar como jornalista na Rádio Deutsche Welle, no departamento de Português para África. Desenvolvi o projeto Rádio Afrolis, ao longo do meu mestrado, e em 2014, lancei-o. No podcast, entrevistava afrodescendentes de todas as áreas fossem famosos ou menos famosos. Após um ano de entrevistas, e de entusiasmo da comunidade que servia, senti a necessidade de sair do formato online, criando a Afrolis — Associação Cultural, em 2015.
Vieram projetos como o Djidiu — A Herança do Ouvido, em que ao longo de doze meses mais um (de março de 2016 a março de 2017), um grupo de pessoas afrodescendentes se reuniu semanalmente, para partilhar conhecimentos sobre poesia africana e produzir os próprios poemas, em torno de temáticas mensais, que foram apresentados em diferentes estabelecimentos da cidade de Lisboa. As apresentações mensais eram feitas sempre em diferentes espaços de convívio, associações, cafés, restaurantes ou bares, com o intuito de habitarmos Lisboa, levando os nossos corpos negros falantes, com uma agenda, a locais onde, muitas vezes, não estamos presentes. Em 2018, foi lançado o livro Djidiu – A Herança do Ouvido. Doze formas mais uma de se falar da experiência negra em Portugal.
Também em 2016, iniciámos a Afrotela dedicada a olhar para as representações de pessoas afrodescendentes em sessões em que assistíamos e debatíamos filmes, documentários e outras obras audiovisuais. O objetivo era promover a discussão sobre o que é ser africano, negro em Portugal e no mundo e a evolução dessas representações ao longo do tempo. Tivemos sessões até 2019.
Não vou destacar todas as iniciativas, mas estas foram as que tiveram maior adesão e duração.
Em 2022, tivemos o nosso primeiro financiamento, o prémio Google News Initiative 2022. Foi um momento de viragem e de muita expectativa. Quis criar uma redação composta por mulheres racializadas jornalistas. Tínhamos o site, para artigos escritos, um videocast apresentado por mim e o podcast. O ano foi intenso, em termos pessoais e profissionais. Em 2024, resolvi fazer uma pausa e dedicar-me mais à família e à escrita. Em 2025, lancei o meu segundo livro infantil: E Tudo Mudou.
Enquanto tradutora portuguesa oficial de Amanda Gorman, poeta e ativista estado-unidense, como definirias os processos de tradução das obras da autora?
Gostei muito de traduzir a Amanda Gorman. Senti-me muito próxima das temáticas e da escrita dela que, como se espera de alguém que preza o spoken word, se ouve ao ler. Transpor para o português a musicalidade e espiritualidade, a historicidade presentes nas palavras da Amanda Gorman foi inspirador. Foi uma honra. Foi uma escola.
Em que se traduz, especificamente, o teu ativismo cultural?
Todo o meu trabalho espelha a criação de espaços de expressão da experiência negra em Portugal. Criei um podcast (2014), uma associação (2015), abri um bar com gastronomia afro (2018), projetos na áreas do cinema e realizei um documentário (2024), literatura (2018), audiodramas (2023), iniciei uma redação com jornalistas afrodescendentes, etc., sempre tendo a experiência negra como central. Interessa-me trabalhar a partir deste centro e expandi-lo.
Dirias que a tua memória afetiva se construiu (também) em Portugal? Será, porventura, uma mescla de influências familiares de várias geografias, mas consegues identificar elementos específicos de Portugal na tua escrita, nas tuas criações? E que sentes relativamente a isso?
Vim para Portugal com 3 anos, então, o que conheço melhor é Portugal. Mas a minha memória afetiva tem elementos de uma Angola muito específica, que é a da minha mãe, e da convivência de diferentes comunidades imigrantes que conviviam no bairro em que cresci, entre retornados e pessoas das ex-colónias portuguesas em geral. As minhas criações são convites para fazermos reflexões que, partindo de uma experiência individual, possamos influenciar experiências coletivas.
A maternidade pode reorientar caminhos e realçar aspetos que passamos a querer explorar, devido à responsabilidade recente e próxima que é a educação de seres humanos acabados de chegar. Nesse sentido, é natural e até fundamental querer preparar o mundo para educar as nossas crianças. A vontade de escrever para a infância acentuou-se quando foste mãe?
Sem dúvida. Sempre pensei no que deveríamos, poderíamos deixar para os que vêm. Mesmo antes de ter filhos. A Afrolis foi também criada nesse sentido. Não queria que outros crescessem desamparados como me senti quando era jovem. Sem recursos para negar as mentiras que eram disseminadas sobre africanos e os seus povos. E escrever para a infância veio como mais uma urgência após o nascimento do meu primeiro filho. O título do livro é Uma Visita Inesperada e fala sobre emoções. É uma história que no texto não levanta a questão racial, mas todas as personagens são crianças negras diversas, nos tons de pele, estilos de cabelo, etc.
A representatividade deve ser autêntica. O livro infantil é um espaço fantástico para celebrar essa autenticidade, explorar novas formas de reunir miúdos e graúdos à volta de temáticas difíceis de forma aberta e orgânica. A simplicidade das histórias promove possibilidades múltiplas de aprofundar temas complexos. Gosto muito de explorar essas possibilidades em diferentes leituras com os meus filhos e em apresentações públicas dos meus livros.
Nos teus livros para o público infantil, Uma Visita Inesperada e E Tudo Mudou, abordas a questão da representatividade, neste caso, de pessoas negras na nossa sociedade. Como tem sido a reação das pessoas que te leem? E quem são as pessoas que te leem?
A receção dos meus livros tem sido muito boa. Fico feliz. Adultos e crianças leem os meus livros. Tenho a sensação de que são livros de família. As bibliotecas têm interesse e convidam-me para apresentações públicas com workshops e já muitos adultos me disseram que também eles aprendem com as histórias. E é esse o meu grande objetivo, que o livro infantil seja um lugar de encontros entre gerações. Que nos possamos rever nas reações dos nossos filhos. Que essas leituras despertem novas leituras em nós e que reservem leituras futuras para os nossos netos.
As tuas criações incluem uma radionovela (It Takes a Village), um audioblogue (Rádio Afrolis), um documentário (Nós Não Viemos do Vazio), diversos livros enquanto autora e tradutora. Em todas elas se destaca o tema da representatividade, ou a sua ausência, e a amplificação de vozes tantas vezes relegadas para um injusto segundo plano. Que criações se seguirão?
Gosto da ideia de continuar a produzir. Não sei a partir de que lugar, mas acredito que será dos espaços que me são mais familiares, a negritude, a maternidade, a feminilidade. Já tenho alguns livros infantis em mãos e talvez poesia. A Amanda Gorman inspirou-me…
Para quem escreves, Carla?
Escrevo para mim. Escrevo para existir. Às vezes, parece que preciso de provas de que existo. O mundo move-se tão rápido. O mundo está cheio de beleza, até mesmo nos momentos mais difíceis. Precisamos de provas de que a testemunhamos. Preciso de tirar apontamentos para depois os partilhar. Escrever é tirar apontamentos sobre o que me inspira.
E quem escreve para ti?
A vida. A natureza. As pessoas.
Links de interesse:
Ser mulher negra em Lisboa (2025) TEDxLisboa
Podcast Rádio Afrolis (2014)
Portugueses Afrolis e Jornal de Guimarães entre os 47 vencedores europeus do programa da Google. Consultado a 21 de novembro de 2025
«Uma coisa é dizer: quem é que traduz? Outra é dizer: quem é que pode traduzir?». Consultado a 21 de novembro de 2025
Cinemateca portuguesa: Nós Não Viemos do Vazio. Consultado a 21 de novembro de 2025
«Uma ferramenta de resistência identitária» chamada Djidiu». Consultado a 21 de novembro de 2025
AFROTELA na Casa Mocambo. Consultado a 22 de novembro de 2025
Fevereiro, 2026
Carla Fernandes com o primeiro livro: Uma Visita Inesperada
Segundo livro de Carla Fernandes: E Tudo Mudou
Livro Djidiu — A Herança do Ouvido
Cartaz do documentário: Nós Não Viemos do Vazio